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Beleléu

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Eu sei que já se falou de tudo sobre as propriedades negativas de certos alimentos. Alguns foram violentamente retirados do palco das cozinhas e confinados aos bastidores do esquecimento. Uma dessas vítimas foi o ovo. Logo ele, que tem cara de inocente! Quem diria, que o tal, já foi considerado o principal responsável pela metade do colesterol do planeta?

Colesterol é uma espécie de soldado inimigo infiltrado em campo de adversário. O adversário nesse caso pode ser você ou eu, um inveterado consumidor de ovos! Ah, quantas vezes, me perdi em delícias a saborear um ovo caipira bem fritinho sobre o arroz!  Agora me sinto traído por esse maldito fruto da galinha, que de inocente, só tem a clara!

Descobri, recentemente, que estou sendo vítima de grandes inimigos dissimulados em amigos leais. Agora deram para difamar também o açúcar. Vejam!  Querem que eu me sinta ao lado de perigosas companhias.  Em minha vida o açúcar sempre fez diferença.  Confesso que já salivei muitas vezes, simplesmente,  ao ver o “lombo rosado” de um pãozinho doce, salpicado com cristais de açúcar. Um “toquinho” de rapadura seguido de um cafezinho amargo, após o almoço, faz parte do meu ritual diário. Se começarem a falar mal do açúcar, daí a pouco vão falar do café e até de mim… Já vejo meu nome estampado, em maiúsculas, em todos os jornais de consultórios: “OVO E AÇÚCAR MANDAM MAIS UM PRO BELELÉU”.

Beleléu é um lugar suspeito para onde são deportadas as vítimas do estômago. Dizem que nesse lugar a condenação eterna consiste no cardápio diário: Arroz com ovo frito, barrigada, doce de leite, cafezinho amargo e uma caninha… Isso lá é vida?  – Definitivamente, os profissionais da nutrição não sabem o que dizer.  Outros dias ouvi um desses caras falar muito mal do sal e do torresminho de barrigada. Ora vejam! Desde que existe o mundo os homens consomem sal e torresminho! O sal de cozinha, com tanta brancura e inocência poderia causar papo nas mulheres e tireóde nos homens?  E a barrigada? Foi ela quem abriu a caixa de pandora espalhando todos os males para o mundo?

Vou lhes dizer a mais pura verdade: os médicos são inimigos da humanidade! Mandam a gente correr, sofrer e comer apenas uma folha de alface por dia… Só faltam dizer que caldo de cana faz mal! Vou prevenir você contra essa organização mafiosa que só quer o nosso mal: – Podem beber caldo de cana à vontade, de preferência, destilado. Assim não pega contaminação…
Ainda bem.
Amém.
A gente se vê, qualquer dia no beleléu!

Os quatro elementos

aseutempo.blogspot.com

O sol que nos aquece está muito longe da terra. Apesar disso, ilumina tudo que brota em sua superfície. Ele não ignora a semente, por menor que ela seja.
Deus é maior do que o sol. Eu sou pequeno demais. Apesar disso, sei que a graça de Deus me alcança. Posso ter esperança. “Não temais, pequenino rebanho, Porque vosso Pai decidiu dar-vos o reino” (Lc 12, 32)

O vento que sopra as montanhas sopra também o escuro dos vales… Deus é bem maior do que o vento. Nele funda minha esperança! “Ainda que eu caminhe por vales escuros, nada temo: tu vais comigo…” (Sl 23, 4)

A água fresca que bebo, irriga todas as células do meu corpo. Deus é mais penetrante que a água. Sua graça me ilumina e me faz ter esperança. “Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede de beber, tu pedirias a ele, e ele te daria água viva” (Jo 4, 10)

A terra, mãe de bondade. Abriga e sustenta os filhos. Deus é mais firme que a terra. Nele eu posso esperar!
Terra e ar, água e fogo, reverenciam a Deus. Por que eu, que sou pobre e pequeno, não haverei de louvá-lo?  “Observai as aves do céu: não semeiam nem colhem nem ajuntam em celeiros e, no entanto, vosso Pai do céu as sustenta. Não valeis vós mais do que elas”? (Mt 6, 26)

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Antiguidades

jillhannah.soopsee.com

Sou  herdeiro legítimo de um tempo que não existe mais. Por isso me dou ao direito de usar minha língua de infância sem ter que explicar muito.

Minhas irmãs polvilhavam o rosto com “cashmere bouquet” (pronunciava: cachimir buquê) e achavam o máximo. Era como ter garantia de arrumar casamento.

Pela manhã comiam angu e fubá suado. À noite posavam de rainhas! Todas conseguiram maridos. A coisa funcionou.

Fui curado de cobreiro, espinhela caída e vento virado.  Às vezes, desconfio que a última cura não ficou bem feita. De vez em quando, parece que ainda sinto o “ventre revirado”.

Já capinei arrozal com água até os joelhos. Era bonito quebrar o espelho de lodo vermelho com a lâmina fina da enxada. O céu se partia em pedaços!

Bebi  muita água na folha de inhame como quem se alimenta de deslizantes cristais.

A primeira vez que andei de jipe pensei que fosse o mundo que girava sob meus olhos. Tive sensações de tontura. Parecia o fim do mundo! E olhe que nem estava na boléia.

Tive com o rádio uma relação de amor. Rádio é individual. Era como carregar o mundo inteiro no bolso. A televisão era grande e podia dar choque! Minha mãe cobria os espelhos quando relampeava. Os espelhos atraiam os raios!

No pátio da Santa Cruz se enterravam os inocentes. Deus me livre de quaresma sem batismo das crianças. O lobisomem não perdoava aquela casa. Era coisa de mistérios. Soube de um cruzeiro que foi partido três vezes por raio. Ninguém dizia que o cruzeiro era azarado. Fazia-se absoluto silêncio e, reconstruía-se a cruz.

Minha mãe tinha um forno feito com pedaços de cupinzeiro. Cupim era bom para guardar o calor, dizia ela enquanto amassava os biscoitos. Tudo era bem pouco, mas acabava sendo  uma grande festa!

“Misto” já foi  o outro nome do “trem de ferro”, o primo pobre do metrô.

Andar de bonde era simplesmente andar de lado. Podia ser o começo de um namoro ou simplesmente uma grande safadeza!

“Cristel” (clister) era o apelido dos chatos. Mas, tinha que ser chato, de verdade, para merecer esse título!

“Pelego” era forro de arreio e mancebo um simples suporte da lamparina, uma prima pobre da luz elétrica.

A lâmpada elétrica foi meu objeto de adoração, mesmo quando queimada!

Agora me diga se não tenho mil razões para ser feliz?

Convivi com a magia do lodo, sofri com espinhela caída, comi biscoito assado em cupinzeiro e bebi água na folha do inhame. Com tudo isso no lombo como não sofrer da ideia, ou querer ser poeta? Assinalei para minha vida a última opção.

Obrigado, meu Deus!